quinta-feira, 12 de julho de 2012

Consentimento

Olha, eu tenho medo sim. Admito. Tua presença, tão breve, me consome. E a ausência, iminente, já dói.
O problema é que você tem de sobra tudo aquilo que me deixa à sombra de mim mesma. Frágil e sem raiz. Imersa na incerteza, no absurdo que é te querer. 
De fato, estava tudo sob controle quando você apareceu. Idéias em ordem, egoísmo em pauta, coração atravancado, impenetrável, seguro. A solidão imposta me bastava, me confortava, me mantinha a salvo. E aí você chegou. O baque. O aperto. O músculo, outrora inerte, agora reagia sem dó nem piedade, como que a desdenhar da minha arrogância, das minhas metas, do meu auto-conhecimento.
Dentre tantas possibilidades, dentre o simples e aconselhável, me veio o díspar: você. E o que tem pra depois? Agora que o impensável aconteceu, agora que a angústia domina, agora que a explicação some. Ficou o cheiro, o gosto e  as suas palavras que ainda ecoam naturais, mas que me parecem tão incertas. 

Você. O medo. A distância. O consentimento do destino, que ainda espero. 

Se estou perdida não sei. É cedo. Mas, quem sabe, se tivermos sorte, você me acha...
E eu me encontro. 

Raquel Barroso

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Apesar de

Sempre achei que esse amor era coisa de quem não tinha nada melhor para fazer. Eu só o sentia porque estava infeliz naquela vida pacata. Só por isso. Resolvi então agitar a vida pacata. E comecei a sair mais de casa, enxergar as pessoas ao meu redor, mais viagens, mais baladas. Amor é coisa de gente pacata e agora que eu tinha uma vida agitada, poderia, finalmente, mandar esse amor embora. Tchau, coisinha besta.

Nada feito. Só piorou. Acordava e ia dormir com ele engasgado aqui. Ficava inconformada. Mas aí concluí: amor é coisa de quem tem tempo pra pensar nele. Claro, mesmo com a semana agitada de trabalho, eu fico em casa o fim de semana todo, alegando cansaço, no silêncio das minhas coisas, claro que acabo pensando besteira. Aquele papo de mente desocupada casa do diabo, sabe? Amor do diabo. Fui procurar Deus.

Depois de dez vigílias e de ler todo o Evangelho, achei que ficaria tudo bem. Ficou nada. Eu só parei de sonhar que botava fogo no apartamento do ser amado ou que arrancava os olhos de todas as mulheres do mundo. Parei, talvez, de odiar o amor. Sim, fiz as pazes com Deus. Mas o amor, na verdade, ficou lá. Duro que nem pedra. Daqueles que não vão embora nem com reza brava.

Amor adolescente, pensei. Com certeza, se eu virar mulher, esse amor bobinho passa. Amor de menina boba. Tratei, então, de virar mulher. Quem sabe mudando o visual esse amor não se mudava de mim? Nada feito. Cabelo novo, roupas novas, sapatos novos, novas contas para pagar. E o mesmo coração idiota. O mesmo amor de sempre. Coisa chata, não?

Ah, quê que é isso! Amor deve passar com um novo amor, não? Olha lá aquele menino bonito te olhando, o outro que escreve bonito, o outro que te faz rir um monte, tem também aquele ali, com mão firme. Nada. Nenhum deles foi capaz de me salvar, de substituir minhas células cansadas em sentir sempre a mesma coisa. Nenhum foi capaz, nem por um segundo, de me levar para passear em outros tormentos. Ou outras alegrias. Qualquer outra coisa que fosse.

Aí veio a idéia brilhante. Será que se eu mergulhasse de cabeça na estupidez desse amor, não me curava? Será que se eu, por um minuto apenas, parasse de sentir tudo isso dentro da grandiosidade que eu inventei e enxergasse de perto como tudo é tosco e pequeno, eu não me curava? Só piorou. De frente para ele e suas constatações tão absurdas a respeito de tudo, só consigo sentir ainda mais amor. E quanto mais e maiores motivos para não sentir, ele e a vida me dão... Adivinhem? Sim, o amor cresce. Irresponsável, sem alimento, sem esperança e de uma burrice enorme. Ainda assim, forte e em crescimento.

Mas esse amor, ah, esse amor é coisa de quem não ama a própria vida. Se um dia, um dia eu pudesse realmente ser uma profissional. Ou até, nossa, se eu pudesse trabalhar no que gosto?! Esse amor iria embora, claro. Nada feito. Estou aqui graças a minha maior qualidade: a fé. Sim, isso só não funciona para o amor, mas para todo o resto, na minha vida, acreditar sempre funcionou. Tudo certo com a minha vida. Ou quase tudo certo. Ainda sinto esse amor ridículo. Essa coisa infernal que me vence todos os dias, todos os minutos. Quantos bons contatos me admiram e me elogiam. Ainda bem que alguém além de mim acredita em mim. É tanta coisa boa acontecendo, tanta gente boa se aproximando, que tá na hora de acordar. Enxergar. Receber.

Taí. Tá bom. O amor venceu. Você venceu. Venceu. Venceu. Venceu. E eu acabo de descobrir, simples assim, a única maneira de me livrar desse sentimento: aceitando, desistindo de tentar driblá-lo nesse jogo, sem a intenção de ganhar ou perder. Te amo mesmo, talvez para sempre. Mas nem por isso vou deixar de viver e ser feliz, imensamente feliz. Apesar desse amor. Apesar da certeza. Apesar de você.

Raquel Barroso (Releitura -- T.B)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

De meu, só algumas gotas do passado

O teu silêncio é a minha canção
Que ondula longíqua, incerta, errante
Brisa tênue, crepúsculo triste
Num choro que se mostra e se esconde
O que é meu do teu som?
Qual a cor do meu inútil pranto?
Descobri, sei que perdi. 
Sou aquilo que morreu!
Vou ao coração, às lembranças procurar
O eco que alguém dentro de mim escuta
A voz da alma que sempre chove... fim
Chuvas passadas que caíram... e fui eu!
Com saudades de mim, vi passar
A distância entre o que fui
E o que poderia ser
Narrei um deserto, mas sou o que descrevo
Nesta garoa que acaba de cair.


Raquel Barroso

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sem sombra de dúvidas



O que adianta ter se não funciona? O que adianta estar com alguém que não entende suas buscas, não acolhe seus anseios, não te emociona, não te descompassa, não te vira a cabeça? Pra quê estar com alguém que não te inspira a ser uma pessoa melhor? Para não ficar só? Para não ser obrigado a olhar para si com sinceridade? Para não ter que digerir o próprio desconforto? Eu não! Que Deus me livre do comodismo do 'morno', do 'tanto faz', do 'mais ou menos'. Amor, quando vale a pena, nos faz caminhar, confiantes, para frente! Com sorriso no rosto... E sem sombra de dúvidas.


Raquel Barroso

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mas?

(...) - Eu te amo. Sim, sim, eu amo. Mas não dá. É errado. É insano. Fora de cogitação. Eu quero, sei que quero, sei que relembro a cada minuto o gosto da tua saliva, o cheiro da tua pele, os contornos que conheci melhor do que ninguém. Eu penso no teu sorriso e sorrio também, porque só tua lembrança me balança o peito, me contrai os músculos, me amarra as vísceras. Eu preciso, indubitavelmente necessito, mas não posso. Não me é permitido. Não mereço, não mereces, não nos é de direito, não nesta vida. Tua ausência me rasga, me açoita, mas, ainda assim, existe o outro, os outros, o mundo lá fora, os julgamentos, a condenação certa, o futuro incerto. E eu tenho medo. Medo de ti, do passado, do presente, do que me espera, da dor que acompanha, da vida que segue. É tanto amor e tanto medo que não ando, mal caminho, apenas me arrasto... Carente de rumo e direção. Carente de consentimento. Carente de coragem. Carente de você. 
Cada dia mais distante, insistindo no que de mim te afasta. Abraçando minhas ilusões ao dizer: ''Felicidade, para quê?''


Raquel Barroso




segunda-feira, 21 de maio de 2012

Não mais necessário

Hoje tive um pesadelo. Eu finalmente chegava, estava ali, transpirando cansaço, à sua espera. A longa espera, aquela que achei que nunca findaria. Estava ali e você não vinha. Pior, você sequer me alertava do desencontro. Me deixava parada, sozinha e muda no desconforto da dor, onde nada se encaixa, onde nosso simples respirar denuncia fragilidade e todo o resto parece não nos pertencer. Permanecia ali por tempo indeterminado, um tanto anestesiada para pensar em pensar qualquer coisa. Um bocado ferida pra ousar qualquer movimento. Entrelaçara meus braços sob o peito para em vão segurar o que escapava, o muito de mim que se esvaía a cada grito que conseguira calar entre um soluço e outro. A dor existe, sabe. Existe e eu a conheço. Ela preenche cada pedaço, permeia as lembranças, habita nos sentidos. Ela tem seu cheiro, seu toque, seu timbre, os traços e expressões do seu rosto. Ela flui de você, meu caro.
Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, na agonia insensata do 'quase', na iminência de te perder para sempre, de te deixar escapar pelas frestas que tanto lutei para fechar... No meu mundo moldado para te pertencer. Excruciante como uma parte que nos falta. Você e sua ausência, confirmando meus pontos fracos, falhos, atestando meu desespero.

Acordei aos gritos. A dor ali estacionada, forte como há tempos não me assaltava. Depois o alívio... A prece clara, alta. A certeza do aprendizado do muito que você me ensinou. O conforto de te saber distante, mas de me saber serena quanto a isso. De me saber amante, mas livre para seguir. De te saber meu professor, porém não mais necessário. 

Raquel Barroso

quinta-feira, 10 de maio de 2012

É um tal de mal me quer

Comumente me flagro fazendo perguntas já corriqueiras acerca de um assunto igualmente habitual: por que será que alguém decide não gostar de você simplesmente por não gostar?  É um mal querer gratuito, um desgosto sem razão. "Nosso santo não bateu", diz a maioria. "Fulaninha não deve prestar... Olha como se veste.", "Ouvi coisas terríveis a respeito de Sicrano...", as motivações são várias. É a sociedade do desafeto, do desamor, do despropósito. Passou até a ser aceitável e compreensível alguém resolver te alvejar moralmente somente pelo fato de não ir com sua cara ou de te responsabilizar afetivamente por ter levado um pé na bunda do namorado, pelo emprego que perdeu, pela relação que não vingou, porque tropeçou andando na rua, porque o horóscopo não foi bom, porque tá de tpm, dentre outros muitos motivos que nada justificam. 
É tanta gente promovendo a si, fazendo da própria fé armadura de combate, firmando ódio por desacertos infantis e rancores passados; é tanta ausência de humildade, que raramente se chega ao perdão e fatalmente se aproxima do caos.
Tem tanta coisa maior do que impulsionar desafetos, tem tanta vida por trás de quem vive pra desmerecer a vida do outro... Temos tanto a aprender quando nos propomos a desculpar, a relevar, a não tomar pra si. Tem tanto amor por vir quando a gente passa a abençoar até o que já não é bem vindo...

Raquel Barroso