segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ou vem ou vai

Tenho um desprezo incomum por tudo que é morno, por toda a trupe do 'mais ou menos'. Que se dane esse equilíbrio forjado e esse oportunismo barato! Quem vai e volta conforme a maré é oferenda! Eu gosto é dos extremos mesmo, de quem toma partido, posição e de quem tem opinião. Neutro pra mim só sabonete! Esteja comigo ou contra mim, chegue perto ou saia correndo, tanto faz, só não fique em cima do muro, porque eu derrubo mesmo.

Raquel Barroso

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Eu quero que você seja meu

Eu quero que você seja meu. Sim, meu. Todavia, sem os resquícios da posse. Meu por assim desejar ser, meu pelas escolhas que permeiam o caminho, meu por saber que não há lugar melhor para se estar, do jeito que está, da maneira que é. 
Eu quero que você seja meu para que, assim, felizmente, eu possa me dizer sua. Sua pela liberdade indizível de dormir em paz, de relaxar as ansiedades, de cessar as buscas. Sua para não ser de ninguém mais. Sua por direito, sua por prazer.
Eu quero que você seja meu para que seja possível, por fim, acreditar. Para que seja são, finalmente, se doar. Para que faça sentido, desta vez, se permitir.
Eu quero que você seja meu para que, juntos, possamos ser mais. Mais alegria, mais calmaria. Uma chama a mais. Alguma certeza, alguma esperança. Companhia no caminhar. A subtrair? Somente as lamentações.
Eu quero que você seja meu. Quero que honre a sorte que te sorri. Quero que a abrace, a segure, a preserve. Quero, então, sorrir também... Consentindo com os olhos, retribuindo com a entrega.

Raquel Barroso

domingo, 23 de setembro de 2012

Liberdade

A verdadeira liberdade, tenho quase certeza, consiste nesse abraço forte que damos em torno de nós mesmos. É uma combinação sublime: pairamos conscientes de nossa importância, de nossos limites, de nossos anseios e, por outro lado, é bem mais fácil abdicar do dispensável, das travas sociais, de gente que só nos atrasa, mas que mantemos ali em nome da educação. Que se dane a educação. Que possamos nos livrar dos venenos diários, dos fiscais da vida alheia, do oba-oba das relações efêmeras. Liberdade, creio eu, é quando a gente aprende a ignorar... E segue assim, ouvidos tapados pras reticências alheias. É absorver, tão somente, o que escolhemos; e perceber, aliviados, que nos é suficiente.

Raquel Barroso

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Quase lá


Cultivamos nosso desapego quase que à força, correndo sem olhar pra trás, linha reta para não cair. Vestígios rasgados pra não querer voltar, desprendimento pra seguir em frente. Aparentemente, fomos bem sucedidos. Nos pusemos a andar, confiantes sem temer distrações, até que cá estancamos. Bem no meio das impossibilidades um do outro. Dois estranhos compartilhando muito mais que experiências passadas. Que coisa, veja só, a gente se olhou... E se viu. 
Eu poderia ir ou te mandar embora, mas já que você chegou no momento - quase -  certo, vou te pedir que fique.
Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que haja, ou não, algo duradouro prescrito pra gente. 
Ainda que a gente se machuque com o passado do qual não nos libertamos, ainda que a sintonia de hoje não nos sirva como laço. 
Eu quero que você fique.  É  um pedido egoísta, eu sei. Possivelmente alguém ficaria sem chão se resultasse em fracasso...
Mas, por outro lado, você sabe como me fazer sorrir... E eu posso te fazer feliz também. Podemos tantas coisas juntos, se livres. 
É um risco.
Eu pulo, se você me der a mão.

Raquel Barroso

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Consentimento

Olha, eu tenho medo sim. Admito. Tua presença, tão breve, me consome. E a ausência, iminente, já dói.
O problema é que você tem de sobra tudo aquilo que me deixa à sombra de mim mesma. Frágil e sem raiz. Imersa na incerteza, no absurdo que é te querer. 
De fato, estava tudo sob controle quando você apareceu. Idéias em ordem, egoísmo em pauta, coração atravancado, impenetrável, seguro. A solidão imposta me bastava, me confortava, me mantinha a salvo. E aí você chegou. O baque. O aperto. O músculo, outrora inerte, agora reagia sem dó nem piedade, como que a desdenhar da minha arrogância, das minhas metas, do meu auto-conhecimento.
Dentre tantas possibilidades, dentre o simples e aconselhável, me veio o díspar: você. E o que tem pra depois? Agora que o impensável aconteceu, agora que a angústia domina, agora que a explicação some. Ficou o cheiro, o gosto e  as suas palavras que ainda ecoam naturais, mas que me parecem tão incertas. 

Você. O medo. A distância. O consentimento do destino, que ainda espero. 

Se estou perdida não sei. É cedo. Mas, quem sabe, se tivermos sorte, você me acha...
E eu me encontro. 

Raquel Barroso

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Apesar de

Sempre achei que esse amor era coisa de quem não tinha nada melhor para fazer. Eu só o sentia porque estava infeliz naquela vida pacata. Só por isso. Resolvi então agitar a vida pacata. E comecei a sair mais de casa, enxergar as pessoas ao meu redor, mais viagens, mais baladas. Amor é coisa de gente pacata e agora que eu tinha uma vida agitada, poderia, finalmente, mandar esse amor embora. Tchau, coisinha besta.

Nada feito. Só piorou. Acordava e ia dormir com ele engasgado aqui. Ficava inconformada. Mas aí concluí: amor é coisa de quem tem tempo pra pensar nele. Claro, mesmo com a semana agitada de trabalho, eu fico em casa o fim de semana todo, alegando cansaço, no silêncio das minhas coisas, claro que acabo pensando besteira. Aquele papo de mente desocupada casa do diabo, sabe? Amor do diabo. Fui procurar Deus.

Depois de dez vigílias e de ler todo o Evangelho, achei que ficaria tudo bem. Ficou nada. Eu só parei de sonhar que botava fogo no apartamento do ser amado ou que arrancava os olhos de todas as mulheres do mundo. Parei, talvez, de odiar o amor. Sim, fiz as pazes com Deus. Mas o amor, na verdade, ficou lá. Duro que nem pedra. Daqueles que não vão embora nem com reza brava.

Amor adolescente, pensei. Com certeza, se eu virar mulher, esse amor bobinho passa. Amor de menina boba. Tratei, então, de virar mulher. Quem sabe mudando o visual esse amor não se mudava de mim? Nada feito. Cabelo novo, roupas novas, sapatos novos, novas contas para pagar. E o mesmo coração idiota. O mesmo amor de sempre. Coisa chata, não?

Ah, quê que é isso! Amor deve passar com um novo amor, não? Olha lá aquele menino bonito te olhando, o outro que escreve bonito, o outro que te faz rir um monte, tem também aquele ali, com mão firme. Nada. Nenhum deles foi capaz de me salvar, de substituir minhas células cansadas em sentir sempre a mesma coisa. Nenhum foi capaz, nem por um segundo, de me levar para passear em outros tormentos. Ou outras alegrias. Qualquer outra coisa que fosse.

Aí veio a idéia brilhante. Será que se eu mergulhasse de cabeça na estupidez desse amor, não me curava? Será que se eu, por um minuto apenas, parasse de sentir tudo isso dentro da grandiosidade que eu inventei e enxergasse de perto como tudo é tosco e pequeno, eu não me curava? Só piorou. De frente para ele e suas constatações tão absurdas a respeito de tudo, só consigo sentir ainda mais amor. E quanto mais e maiores motivos para não sentir, ele e a vida me dão... Adivinhem? Sim, o amor cresce. Irresponsável, sem alimento, sem esperança e de uma burrice enorme. Ainda assim, forte e em crescimento.

Mas esse amor, ah, esse amor é coisa de quem não ama a própria vida. Se um dia, um dia eu pudesse realmente ser uma profissional. Ou até, nossa, se eu pudesse trabalhar no que gosto?! Esse amor iria embora, claro. Nada feito. Estou aqui graças a minha maior qualidade: a fé. Sim, isso só não funciona para o amor, mas para todo o resto, na minha vida, acreditar sempre funcionou. Tudo certo com a minha vida. Ou quase tudo certo. Ainda sinto esse amor ridículo. Essa coisa infernal que me vence todos os dias, todos os minutos. Quantos bons contatos me admiram e me elogiam. Ainda bem que alguém além de mim acredita em mim. É tanta coisa boa acontecendo, tanta gente boa se aproximando, que tá na hora de acordar. Enxergar. Receber.

Taí. Tá bom. O amor venceu. Você venceu. Venceu. Venceu. Venceu. E eu acabo de descobrir, simples assim, a única maneira de me livrar desse sentimento: aceitando, desistindo de tentar driblá-lo nesse jogo, sem a intenção de ganhar ou perder. Te amo mesmo, talvez para sempre. Mas nem por isso vou deixar de viver e ser feliz, imensamente feliz. Apesar desse amor. Apesar da certeza. Apesar de você.

Raquel Barroso (Releitura -- T.B)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

De meu, só algumas gotas do passado

O teu silêncio é a minha canção
Que ondula longíqua, incerta, errante
Brisa tênue, crepúsculo triste
Num choro que se mostra e se esconde
O que é meu do teu som?
Qual a cor do meu inútil pranto?
Descobri, sei que perdi. 
Sou aquilo que morreu!
Vou ao coração, às lembranças procurar
O eco que alguém dentro de mim escuta
A voz da alma que sempre chove... fim
Chuvas passadas que caíram... e fui eu!
Com saudades de mim, vi passar
A distância entre o que fui
E o que poderia ser
Narrei um deserto, mas sou o que descrevo
Nesta garoa que acaba de cair.


Raquel Barroso