terça-feira, 16 de julho de 2013

Indo e vindo

Porque, na verdade, todos nós somos obrigados a negar as várias idades que temos: ora somos novos e imaturos, ora somos velhos e sábios, pertencemos a vários lugares e vivemos nesse incrível ir e vir, nesse remendo sem fim. Existir, então, se resume a isso: vestir contradição e sair na rua, nos despedindo do muito que deixamos para trás, ansiando pelo muito que tomaremos a seguir. Sorte nossa que a fé é, também, camaleônica.
Raquel Barroso

terça-feira, 7 de maio de 2013

Verdade maior


Quando finalmente você aprende que cada um só oferece aquilo que tem, você para de revidar, de se preocupar, de se deixar abalar pelo julgamento de quem vive de mal com a vida e, por isso, se incomoda demasiadamente com a dos outros. Você se dá conta que a lei da atração existe e que todos aqueles mantras sobre plantar e colher, atrair o que transmite, espelho e reflexo, são bem mais verdadeiros do que imaginávamos. Daí, fica fácil e perfeitamente justificável gastar seu tempo somente com quem e o que te faz bem. Isso mesmo. Aprender a sair de cena sem muito alarde talvez seja o maior sinalizador de uma atividade mental saudável.  E aí você fica em paz. Contente em ser um mero espectador de algumas pequenezas... Afinal, verdade maior não há: a gente ganha a guerra quando foge da briga.

Raquel Barroso 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ou vem ou vai

Tenho um desprezo incomum por tudo que é morno, por toda a trupe do 'mais ou menos'. Que se dane esse equilíbrio forjado e esse oportunismo barato! Quem vai e volta conforme a maré é oferenda! Eu gosto é dos extremos mesmo, de quem toma partido, posição e de quem tem opinião. Neutro pra mim só sabonete! Esteja comigo ou contra mim, chegue perto ou saia correndo, tanto faz, só não fique em cima do muro, porque eu derrubo mesmo.

Raquel Barroso

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Eu quero que você seja meu

Eu quero que você seja meu. Sim, meu. Todavia, sem os resquícios da posse. Meu por assim desejar ser, meu pelas escolhas que permeiam o caminho, meu por saber que não há lugar melhor para se estar, do jeito que está, da maneira que é. 
Eu quero que você seja meu para que, assim, felizmente, eu possa me dizer sua. Sua pela liberdade indizível de dormir em paz, de relaxar as ansiedades, de cessar as buscas. Sua para não ser de ninguém mais. Sua por direito, sua por prazer.
Eu quero que você seja meu para que seja possível, por fim, acreditar. Para que seja são, finalmente, se doar. Para que faça sentido, desta vez, se permitir.
Eu quero que você seja meu para que, juntos, possamos ser mais. Mais alegria, mais calmaria. Uma chama a mais. Alguma certeza, alguma esperança. Companhia no caminhar. A subtrair? Somente as lamentações.
Eu quero que você seja meu. Quero que honre a sorte que te sorri. Quero que a abrace, a segure, a preserve. Quero, então, sorrir também... Consentindo com os olhos, retribuindo com a entrega.

Raquel Barroso

domingo, 23 de setembro de 2012

Liberdade

A verdadeira liberdade, tenho quase certeza, consiste nesse abraço forte que damos em torno de nós mesmos. É uma combinação sublime: pairamos conscientes de nossa importância, de nossos limites, de nossos anseios e, por outro lado, é bem mais fácil abdicar do dispensável, das travas sociais, de gente que só nos atrasa, mas que mantemos ali em nome da educação. Que se dane a educação. Que possamos nos livrar dos venenos diários, dos fiscais da vida alheia, do oba-oba das relações efêmeras. Liberdade, creio eu, é quando a gente aprende a ignorar... E segue assim, ouvidos tapados pras reticências alheias. É absorver, tão somente, o que escolhemos; e perceber, aliviados, que nos é suficiente.

Raquel Barroso

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Quase lá


Cultivamos nosso desapego quase que à força, correndo sem olhar pra trás, linha reta para não cair. Vestígios rasgados pra não querer voltar, desprendimento pra seguir em frente. Aparentemente, fomos bem sucedidos. Nos pusemos a andar, confiantes sem temer distrações, até que cá estancamos. Bem no meio das impossibilidades um do outro. Dois estranhos compartilhando muito mais que experiências passadas. Que coisa, veja só, a gente se olhou... E se viu. 
Eu poderia ir ou te mandar embora, mas já que você chegou no momento - quase -  certo, vou te pedir que fique.
Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que haja, ou não, algo duradouro prescrito pra gente. 
Ainda que a gente se machuque com o passado do qual não nos libertamos, ainda que a sintonia de hoje não nos sirva como laço. 
Eu quero que você fique.  É  um pedido egoísta, eu sei. Possivelmente alguém ficaria sem chão se resultasse em fracasso...
Mas, por outro lado, você sabe como me fazer sorrir... E eu posso te fazer feliz também. Podemos tantas coisas juntos, se livres. 
É um risco.
Eu pulo, se você me der a mão.

Raquel Barroso

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Consentimento

Olha, eu tenho medo sim. Admito. Tua presença, tão breve, me consome. E a ausência, iminente, já dói.
O problema é que você tem de sobra tudo aquilo que me deixa à sombra de mim mesma. Frágil e sem raiz. Imersa na incerteza, no absurdo que é te querer. 
De fato, estava tudo sob controle quando você apareceu. Idéias em ordem, egoísmo em pauta, coração atravancado, impenetrável, seguro. A solidão imposta me bastava, me confortava, me mantinha a salvo. E aí você chegou. O baque. O aperto. O músculo, outrora inerte, agora reagia sem dó nem piedade, como que a desdenhar da minha arrogância, das minhas metas, do meu auto-conhecimento.
Dentre tantas possibilidades, dentre o simples e aconselhável, me veio o díspar: você. E o que tem pra depois? Agora que o impensável aconteceu, agora que a angústia domina, agora que a explicação some. Ficou o cheiro, o gosto e  as suas palavras que ainda ecoam naturais, mas que me parecem tão incertas. 

Você. O medo. A distância. O consentimento do destino, que ainda espero. 

Se estou perdida não sei. É cedo. Mas, quem sabe, se tivermos sorte, você me acha...
E eu me encontro. 

Raquel Barroso